As tomadas brasileiras – padrão NBR 14136

Por João Gilberto Cunha

Mesmo depois de quinze anos, a adoção de um padrão de tomadas brasileiro não foi entendido por muitos. Este artigo coloca alguns pingos nos ‘is’ e traz uma linha do tempo mostrando como era e como estamos agora, apresentando claramente as mudanças que o novo padrão trouxe.

Um aspecto que ninguém fala é que a padronização das tomadas de corrente no Brasil ocorreu na mesma época da padronização argentina e uruguaia. Não foi uma ação de lobby de alguma empresa na ABNT ou no Inmetro para mudar um mercado.

O mercado brasileiro, como os demais antes da padronização, era uma confusão de modelos, e alguns, que pareciam muito interessantes para os leigos, ofereciam perigos ou não podiam garantir a segurança dos usuários. Todos os países desenvolvidos têm o seu padrão de tomadas e todos têm o aterramento como garantia de segurança nas tomadas fixas, porque o Brasil seria diferente? Será que somos mais pobres que os argentinos, os uruguaios ou os chilenos e não conseguimos pagar a segurança de uma tomada segura? Será que vamos condenar as futuras gerações a terem tomadas inseguras?

Vamos falar de um tipo de tomada que foi usado no Brasil que, para os leigos, dava a noção de flexibilidade; mas que entre os profissionais era conhecida como tomada assassina. Veja a combinação (imagem 1 e 2) que pode dar entre os dois produtos abaixo: a tomada (fêmea) e o plugue (macho).

Imagem 1

Imagem 2

A tomada que foi pensada para dar flexibilidade de aceitar, tanto o plugue chato quanto o plugue redondo, para equipamentos com plugues de dois pinos, no caso do uso de equipamentos de 3 pinos, energiza a carcaça do equipamento com a tensão de fase – que pode ser 127 V, onde a tensão é de 220 V, ou 220 V, onde a tensão é de 380 V. Este perigo existia e era real!

Outra tomada que foi usada no Brasil, não sei porque os americanos nunca pensaram nisso – como uma boa tomada, é a chamada universal. Ela tentou resolver o problema da primeira tomada e, realmente, foi uma evolução dela porque aceitava plugues chatos e redondos e o terra era comum para as duas. Uma boa ideia brasileira? Porque ninguém no mundo copiou? Porque ela tinha um problema sério que só podia ser resolvido com um plugue adequado. O plugue redondo por característica construtiva era longo e o plugue chato, curto. Se o contato da tomada fosse profundo para impedir o contato do dedo quando o plugue já estivesse encostado na tomada (logo, o contato do plugue já estivesse energizado) o contato entre o pino chato, que é muito menor que o redondo, não retirava a retenção suficiente para segurar o plugue dentro da tomada. Se o contato dentro da tomada fosse mais raso, para permitir uma maior área de contato entre o plugue e a tomada (conferindo uma maior retenção), o plugue redondo seria energizado quando uma dimensão razoável dele estivesse ainda exposta. Este era o problema deste tipo de tomada, e quando um fabricante optasse pela segurança do plugue redondo, era criticado pela falta de qualidade (retenção do plugue chato na tomada). Isto não é uma hipótese, foi um caso real (prefiro não mencionar o fabricante). A solução seria adotar a padronização do plugue redondo encamisado, mas se um equipamento vindo de fora do país fosse usado, o perigo continuaria o mesmo (imagem 3).

Imagem 3

Estes eram os problemas nas nossas tomadas, mas existia um problema ainda mais sério: no Brasil se usava muito mais tomadas de dois pinos, ou seja, sem o aterramento. Para não citar os Estados Unidas ou países europeus, eu cito o Uruguai, a Argentina e o Chile que já não usam tomadas de dois pinos, porque eles reconheceram a necessidade de garantir a proteção contra choques da população. Uma pergunta muito comum: de que adianta tomada de três pinos, se nós não temos aterramento nas casas? Esta pergunta não considera que as instalações novas precisam ser feitas de forma correta e, se continuarmos a fazer errado, daqui a 20 anos, teremos cem por cento das instalações inseguras. Se mudarmos agora, daqui a 20 anos teremos uma porcentagem muito maior de instalações seguras. Na normalização, não se trabalha olhando para trás, e sim para frente (imagem 4).

Imagem 4

Padronização brasileira de tomadas

O Brasil – na mesma época que o Uruguai e a Argentina, como foi dito no início deste artigo – decidiu padronizar as suas tomadas. Existiam vários caminhos a serem tomados, esta discussão remonta os anos 1980, mas só no final dos anos 1990, uma comissão da ABNT chegou a um consenso sobre o modelo a ser adotado no mercado brasileiro.

Depois de tomada a decisão houve, como sempre há, discordâncias sobre a decisão a ser tomada, alguns achavam que deviam ter seguido o padrão americano, mas não sabiam que não existe uma tomada/plugue padrão americano – para garantir a segurança da população, os americanos optaram por um conjunto de tomadas e plugues, mostrados na imagem 5 abaixo.

Imagem 5

Não são todas estas tomadas que são usadas nos equipamentos que chegam até o nosso país, mas com certeza ainda teríamos a discussão entre o pino chato e o pino redondo, veja que o padrão americano usa o pino chato.

Diferente dos americanos, os europeus utilizam plugues de pinos redondos, existe um padrão de tomada chamada Europlug (padrão CEE 7/16), que é uma tomada de dois pinos redondos utilizados na maioria dos países do mundo, que é mostrado na imagem 6, a seguir.

Imagem 6

Este plugue é de dois pinos porque existe uma tendência de que os equipamentos móveis e portáteis sejam de dupla isolação (neste caso, a proteção contra choques elétricos é garantida por uma segunda isolação, e não por aterramento). E este padrão é muito adequado a este tipo de equipamento.

Diante de todas estas possibilidades, a comissão de estudos da ABNT adotou o padrão internacional IEC 60906-1, que é a busca de um padrão mundial. Utilizados, até o momento, pelo Brasil, Suíça e África do Sul. Poderia ser outro? Eu penso que sim, mas não foi a decisão da comissão de estudos da ABNT, que elabora os projetos de normas e colocam em consulta nacional. O nosso problema é que não participamos das consultas nacionais da ABNT, como de resto não participamos também das consultas da ANEEL, do INMETRO e demais. Aprovada na consulta nacional, a norma torna-se um padrão brasileiro.

E qual é o papel do INMETRO neste processo?

O INMETRO é o órgão regulamentador, o órgão que tem como objetivo, garantir que os requisitos de segurança estabelecidos nas normas sejam adotados nos produtos comercializados no mercado nacional, principalmente em produtos de uso doméstico ou similares, ou seja, de uso de pessoas comuns. Esta é a função do INMETRO, neste caso. O que o órgão fez? Estabeleceu um cronograma de transição, ou seja, seriam fabricadas as duas tomadas durante o período de transição – exatamente como ocorreu na Argentina – as tomadas novas seriam usadas nas instalações novas e as antigas na substituição das instalações antigas – o que aconteceu na Argentina, se via no comércio os dois padrões: o argentino e os outros, diferente do Brasil, onde não se encontrava o padrão brasileiro.

O que fez o INMETRO diante disso: prorrogou o período de implantação, pois ao final do prazo inicialmente estabelecido não se encontrava o padrão brasileiro no mercado. Começou então um novo cronograma de implantação – adivinha o que aconteceu? Chegou o final do prazo e nada da tomada brasileira estar no mercado. Depois de algumas prorrogações, o INMETRO resolveu endurecer o jogo e deu um ultimato (os mais velhos vão lembrar do que ocorreu com os prazos da entrega da declaração de rendimentos). O que o INMETRO fez foi somente definir que os critérios de segurança adotados pela ABNT, que representa a sociedade brasileira, deveriam ser seguidos (se esta representação é fraca é preciso fortalecê-la, como é feito no resto do primeiro mundo).

Eu não vejo como criticar o INMETRO nesta função, é preciso ter algum órgão que se preocupe com a segurança das pessoas que não tem conhecimento para discernir entre o que é perigoso e o que é seguro. Eu já escrevi por dois anos consecutivos, e vou escrever no final deste ano novamente, de que os enfeites de Natal deveriam ter uma norma de segurança e serem certificados. Auxiliando, por exemplo, uma dona de casa que vai a uma loja comprar os enfeites e se depara com dois produtos semelhantes, com nomes estranhos e que não trazem nenhuma informação para ajudá-la na compra.

As novas tomadas e as instalações antigas

Muito se fala de que o novo padrão obrigaria todos a trocarem as tomadas ou usarem adaptadores. No Brasil, hoje, ainda existem muitos equipamentos classe 0 (que deveriam ter aterramento por causa da carcaça metálica, e não tem) – equipamentos que não deveriam ser mais comercializados e equipamentos classe II, em que o plugue é de três pinos porque a proteção não é feita pelo aterramento. Nestes casos, as tomadas antigas são compatíveis com os equipamentos novos.

Quando seria necessária a substituição das tomadas? Quando as tomadas danificassem, porque não existe mais tomadas de outro formato no mercado; ou quando fosse adquirido um equipamento novo com o plugue novo, neste caso deveria ser substituída a tomada e não usados os adaptadores. Inclusive, as tomadas têm um custo equivalente ao do adaptador.

Sim, as tomadas têm um custo equivalente ao adaptador, por que isso? Por que o padrão brasileiro de tomadas consegue unir segurança e baixo custo, devido ao seu formato, bastante compacto se comparado com o padrão alemão, por exemplo.

Isto ninguém fala, o custo da tomada de três pinos atual é praticamente o mesmo da tomada de dois pinos antiga.

A opção da comissão de estudos da ABNT pela tomada internacional IEC foi bastante acertada, este padrão foi concebido por grandes especialistas internacionais e teve a contribuição de vários países, durante todo o projeto de elaboração da norma internacional. Ainda hoje, mais de 15 anos da publicação da norma brasileiras – a NBR 14136 – muitas pessoas ainda não compreenderam as vantagens deste padrão, mas de fato elas existem. Algumas ainda – por desconhecimento do processo de normalização – atribui a partidos políticos a adoção do modelo, mas este padrão inseriu o Brasil no hall dos países que tem a preocupação com os seus cidadãos quanto ao uso da energia elétrica.

Por muita vezes eu disse, durante o processo de divulgação desta norma – nós seremos conhecidos pelas próximas gerações assim: “o meu pai ou meu avô é da época da tomada de dois pinos”.

 

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